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Entenda como o "frio do século" pode afetar a agropecuária do sul de Minas

Publicado: Terça, 27 de Julho de 2021, 17h35 | Última atualização em Quarta, 28 de Julho de 2021, 13h30

Edital 3No dia 26/07, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, emitiu um alerta sobre o declínio acentuado da temperatura, chamado até então de "o frio do século".

Essa baixa temperatura poderá afetar diretamente a agropecuária em todas as regiões onde haja incursão dessa intensa onda de frio. Então trouxemos especialistas do IFSULDEMINAS - Campus Muzambinho - para orientarem os produtores sobre as principais formas de cuidado com as lavouras e criações.

A queda da temperatura na região 

frio geadaSegundo as análises dos Meteorologistas do Sistema Nacional de Meteorologia (SNM) a previsão é "que a partir de amanhã (27) as temperaturas entrem em declínio acentuado no Rio Grande do Sul. Com o deslocamento da frente fria, a chuva ainda está prevista para os três Estados da Região Sul até amanhã (27) e também deverá atingir o sul do Mato Grosso do Sul; posteriormente no dia 28 (quarta-feira), deverá ocorrer no Sudeste (leste de São Paulo com maiores volumes), Sul de Minas Gerais, e na sequência, Rio de Janeiro e Espírito Santo".

"Para o Sudeste, os dias mais críticos em termos de menores temperaturas, mínimas e máximas, serão os dias 29 e 30/07 (mínimas entre -2°C e -5°C na Serra da Mantiqueira, divisa entre São Paulo e Minas Gerais e máximas abaixo de 15°C em parte da região, especialmente nas regiões metropolitanas de São Paulo e Belo Horizonte); também são previstas temperaturas negativas no sul do Mato Grosso do Sul e no sudeste de São Paulo", segundo dados do INMET.

FOTO 3Lucas Eduardo de Oliveira Aparecido, professor do IFSULDEMINAS - Campus Muzambinho e especialista em agrometeorologia, alertou que o "frio do século" deve afetar o sul de Minas com temperaturas de até 1º negativo. "Para essa semana está marcado um frio intenso entre os dias 28/07 e 1° de agosto e os termômetros podem chegar a aferir uma temperatura do ar de -1ºC para amanhecer a sexta-feira (30/07), como podemos observar na previsão do modelo da CPTEC (gráfico ao lado). Todo esse frio é devido a uma massa de ar frio polar que está adentrando o Brasil e pode promover a ocorrência de geadas em extensas áreas do país".

De acordo com o professor, "em relação aos dados históricos a ocorrência de -1ºC não será o maior frio do século, pois já registramos essa aferição em outras ocasiões. Um dos destaques dessa queda de temperatura do ar da semana é que a mesma não será pontual, especifica de um local, mas generalizada,  já que vários locais do Sul de Minas estão com previsão de -1ºC".

Apesar de chegar a regiões do sul do país de forma mais drástica (com temperaturas entre -6°C e -8°C, segundo o INMET), essa massa de ar polar também afetará nossa região Sul de Minas. Lucas ressaltou que "a principal problemática desta queda brusca da temperatura do ar é a formação de geadas. Esse fenômeno da natureza, que ocorre quando se formam camadas finas de gelo sobre as plantas, é muito prejudicial às culturas agrícolas, principalmente as das hortaliças, de forma geral, e o cafeeiro. No café a geada causa a queima das folhas e danos superficiais aos ramos e troncos, o que afeta produções de até duas safras seguintes".

Lucas destacou ainda que, após essa semana de friagem, as previsões demonstram que os termômetros voltam à normalidade para a época do ano, com valores de temperatura mínimas em torno de 10ºC.

WhatsApp Image 2021 07 27 at 17.02.29 1Como o frio pode afetar o cafezal?

De acordo com José Marcos Angélico de Mendonça, agrônomo e doutor em fitotecnia, o cafeeiro arábica é sensível às temperaturas baixas, sendo significativamente prejudicado a partir de temperaturas abaixo de 13ºC. Podem ocorrer diversos "prejuízos fisiológicos na translocação de fotoassimilados, na fotossíntese, entre outros. Visualmente, ocorrem deformações e descolorações em folhas novas e meristemas (pontas dos ramos)".

Já em valores térmicos menores, os danos aumentam. "Podem surgir lesões no colo das plantas (região de transição da raiz e do tronco), chamado de “canela de geada”, distúrbio causado pela morte das células dessa região do tronco pelo acúmulo de ar frio sob a copa das plantas e também pela ocorrência das geadas".

O professor também explicou que há alguns cuidados que o produtor pode tomar para evitar que o cafeeiro sofra com as geadas. "Quanto às formas de proteção das plantas, a mais eficaz é a não-ocupação de áreas sujeitas à tais situações, ou seja, áreas sujeitas à ventos frios ou de menor altitude, devido à possibilidade de acúmulo de massa de ar frio. Ainda, recomenda-se evitar o plantio de lavouras abaixo de pastagens ou acima de matas ou vegetações altas".

José Marcos ainda citou que outras medidas são recomendadas como:

  • permitir que ocorra maior incidência de sol sobre o solo;
  • o arqueamento de plantas jovens (cafeeiro recém-plantado) e protegido por terra, por período de até 3 a 4 semanas;
  • a cobertura com saquinhos de papel na noite de ventos frios, como proteção em caso de geada de ventos;
  • e ainda, há a possibilidade do uso de nebulização, com produção de fumaça decorrente da queima de misturas a base de serragem e óleos, com objetivo de formar um cobertor de fumaça sobre a microbacia, de maneira a impedir que ocorra a perda de calor por radiação noturna.

Sobre essa última sugestão, o professor disse que 'é importante salientar que esse método pode ser eficaz quando é realizado em toda a microbacia e não apenas sobre uma determinada área, visto que o objetivo é a formação de um cobertor de fumaça sobre toda a região de maior possibilidade de acúmulo de ar frio/perda de calor por radiação. Isso é um trabalho coletivo e não individual, onde cada nebulizador de 50 litros de mistura para queima é capaz de produzir fumaça para aproximadamente 20 hectares da microbacia".

Após a geada, a recuperação das plantas irá depender da intensidade dos danos causados, determinados após um período de 2 a 3 semanas. Segundo José Marcos, "os cuidados dependerão da intensidade dos danos, necessitando, em situações graves, do arranquio e replantio da lavoura, em especial em lavouras novas. Em lavouras em produção, a partir de 4 anos, dependendo da intensidade dos danos, pode-se realizar podas e a retirada das partes danificadas. É necessária a realização de todas as práticas culturais após essa prática de podas para o adequado reestabelecimento da lavoura, como análise de solo, calagem e adubação, desbrotas, manejo fitossanitário, entre outros.

Sobre a alteração no preço do café diante de tais efeitos climáticos, o professor ressaltou que "o café é um produto que tem seu preço regulado pela relação de oferta e demanda e, além disso, o consumo vem crescendo firmemente nos últimos anos. É natural que situações que afetem a capacidade produtiva de café no Brasil, maior produtor de café do mundo, influenciem de maneira importante na dinâmica dos preços do café nesse ano e nos seguintes. É válido reforçar que em situações complexas como essa, o mercado oscila significativamente e em caso de realização de vendas, isso deve ser observado.

DSC 0271Como a friagem pode afetar a área de bovinocultura e demais criações?

Marcelo Simão da Rosa, doutor em Zootecnia e coordenador da área de Bovinocultura Leiteira do IFSULDEMINAS - Campus Muzambinho, citou que o frio afeta os animais bovinos com intensidades diferentes. "As criações de animais em nosso país geralmente estão mais preparadas para o estresse térmico por calor, pelo país ser de clima tropical. O estresse térmico por frio, que acontecerá, afetará grande parte de nossas criações por falta de infraestrutura que os protegem do frio. Esse estresse térmico por frio causará queda da produtividade e, ocasionalmente, óbito de animais mais sensíveis ao frio".

O principal alerta refere-se ao gado de corte que temos na região, que é de origem Indiana. Segundo o professor, essa raça "sofrerá drasticamente, podendo muitos animais virem a óbito, uma vez que geneticamente não são resistentes a temperaturas baixas extremas. A zona de conforto térmico para esses animais vai de 5 a 32 graus. Mesma situação poderá acontecer com animais mestiços, cruzamento de raças europeias e indianas".

"Já os animais bovinos de raças puras de origem europeia, Holandês e Jersey (exemplos), são mais resistentes ao frio, com zona de conforto térmico entre temperaturas de -5 a 23 graus. Mesmo possuindo geneticamente essa resistência sofrerão de forma mais amena a queda de temperatura por estarem aclimatados a temperaturas não tão baixas, podendo reduzir a produção leiteira no período".

Questionado sobre as formas de proteção dos animais nesse período, Marcelo disse que "conforme o sistema de criação há infraestruturas que poderão protegê-los. O sistema extensivo não é preparado para tal situação, uma vez que os animais ficam diretamente no campo: aves empoleiradas, suínos em baias abertas, bovinos a campo. O sistema intensivo, confinamento, possui estruturas que amenizarão o estresse térmico: cortinas dos galpões das aves, suínos em baias fechadas e gado leiteiro em galpões. Para o gado de corte, mesmo em sistema intensivo, a proteção poderá ser o agrupamento dos animais por estarem em área delimitada. O sistema semi-intensivo, conforme a instalação, poderá promover certa proteção como o intensivo" .

De acordo com Marcelo, o frio será intenso também em regiões do centro-oeste e esses efeitos na bovinocultura do Brasil podem elevar o preço da carne por ter a oferta reduzida.

Ariana Vieira SilvaComo lidar com a geada na produção de cereais e da cana?

​No que se refere aos cereais, a nossa professora Ariana Vieira Silva, doutora em fitotecnia, explicou que as lavouras de aveia e trigo na fase vegetativa toleram geadas, mas a partir do florescimento podem haver danos. Ela também ressaltou que a cevada, que vem aumentando em área na região, não tolera geada. "Todo o escalonamento de plantio foi atrasado em função da seca da primeira safra, o que refletiu no atraso da janela de plantio da segunda safra, caracterizada no sul de Minas Gerais pelo cultivo de feijão, milho e sorgo. A seca foi novamente observada na segunda safra, o que já havia sido relatado em quebra de safra. Com este atraso, a maioria das lavouras ainda se encontrava em fase de enchimento dos seus grãos e foram significativamente afetadas pela geada dos últimos dias já que a planta secou, cessando seu desenvolvimento antes que os grãos atingissem sua maturação e ponto de colheita".

Ariana destacou que "a cultura semi-perene da cana-de-açúcar, apesar de não ser um cereal, foi muito afetado pela geada, em casos mais leves como de queima ou dessecação das folhas, brotações laterais até o caso mais grave de morte da gema apical e todas as gemas laterais que levam ao perfilhamento da planta ao nível do solo ou rachadura dos colmos". A professora disse ainda que "no caso da cana-de-açúcar a ser colhida na atual safra, após a geada, se manter o frio e a seca será menor a deterioração. Já a elevação de temperatura e umidade aumentam a deterioração necessitando de colheita o mais rápido possível. Canaviais recém-plantados ou soqueiras em formação com elevação de temperatura e umidade serão menos impactados".

A fim de garantir a proteção da lavoura, Ariana citou que o produtores devem tomar alguns cuidados como:

  • Evitar áreas de baixada;
  • Plantio na época adequada conforme zoneamento climático;
  • Solos nús ou com menor massa residual, úmidos e compactados;
  • Plantas com bom equilíbrio nutricional e/ou as sob estresse hídrico tendem a ter menor ponto de congelamento devido aos altos teores de sais em seu conteúdo celular;
  • Exposição oeste das lavouras mantem as plantas aquecidas na tarde anterior a geada, reduzindo o congelamento;
  • Cultivares com resistência e tolerância a geada no caso das culturas da aveia e do trigo, respectivamente.

Questionada sobre a possibilidade de recuperação das plantas após a geada, Ariana respondeu que "no caso do milho e sorgo, com técnicas adequadas, apesar da porcentagem de matéria seca estar baixa após a geada, parte pode ser aproveitada para o processo de ensilagem, desde que seja adicionado milho ou sorgo moído e farelo para que ocorra a fermentação e se obtenha a silagem, após no mínimo 30 dias no silo. Nas culturas de inverno, que se encontram já semeadas e em fase vegetativa é necessário manter as plantas bem nutridas e sadias para menores perdas. Quando da utilização de cultivares de aveia resistentes ao frio tem-se melhorias na quantidade de produção da forragem como opção".

Ariana ainda ressalta que com a menor oferta, os preços do milho ainda se mantêm, mas a preocupação maior é em ter o produto. O feijão carioca já está em alta e, com a possibilidade de novos eventos como este, a tendência é que continue assim. Já a aveia, a cevada e o trigo estão dependentes das consequências de novas geadas a partir da fase reprodutiva. Assim como a cana-de-açúcar que está dependente das condições climáticas além dos fatores relacionados a fase da cultura em si.

TEXTO: ASCOM

IMAGEM: Lucas Eduardo de Oliveira Aparecido

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